Em Entretempos, Carolina Martinez apresenta um conjunto inédito de pinturas, esculturas e instalações que investigam as possibilidades expressivas da matéria.

Entretempos, mostra individual de Carolina Martinez em cartaz na Galeria Marilia Razuk, reúne obras inéditas que transitam entre pintura, escultura e uma instalação de grande formato. Entre os destaques da exposição está o uso da cerâmica, material que assume protagonismo em parte significativa da produção apresentada. Ao ocupar espaços tradicionalmente destinados à tela, a cerâmica amplia a investigação da artista sobre matéria, superfície e forma, aprofundando uma pesquisa que já se manifestava em trabalhos anteriores, mas que aqui revela um evidente amadurecimento formal e conceitual.

Com dimensões e configurações variadas, as obras evidenciam uma busca pela assimetria e pelo deslocamento dos padrões convencionais de composição. Essa lógica também se estende à expografia, que evita uma disposição linear e previsível. Em Entretempos, as peças se distribuem pelo espaço de maneira alternada, estabelecendo relações visuais dinâmicas e produzindo percursos que convidam o olhar a constantes reconfigurações. O resultado é uma espacialidade em movimento, que rompe com a regularidade das montagens tradicionais e reforça o caráter experimental da exposição.

Sem mais delongas, leia com exclusividade do texto curatorial de Catarina Duncan:

“Depois do nosso encontro retomei a leitura da biografia da Hilma af Klimt e me deparei com uma frase que lembra um pouco a sensação que tenho ao criar as arquiteturas em meu trabalho. Vou dividir aqui com você, veja o que acha: “A face secreta do mundo, aquilo que se sentia em um sonho e se esquecia ao acordar.” [1] O contexto é esta busca pelo inconsciente, espiritual e invisível. E também a sensação de viver algo físico dentro de um sonho que é difícil de descrever e muitas vezes esquecemos, ficando apenas o sentimento”.
Carolina Martinez, 12 de março de 2026 

Em “Entretempos”, Carolina Martinez constrói uma experiência em que arquitetura, cor e matéria operam como dispositivos de percepção. Suas pinturas, esculturas e instalações deslocam nossa relação com os espaços que habitamos. Entre planos cromáticos, estruturas suspensas e intervalos silenciosos, a artista elabora territórios que provocam memórias coletivas. 

A pesquisa de Carolina parte da compreensão de que os espaços nunca são neutros. Há uma dimensão invisível que atravessa a experiência física dos ambientes — uma espécie de camada afetiva e psíquica que antecede a linguagem. A cor, em sua obra, aparece como campo estrutural e sensorial: ela organiza o espaço, altera sua temperatura emocional e produz estados de suspensão perceptiva. Os trabalhos instauram um tempo expandido, um intervalo entre o mundo concreto e aquilo que escapa à nomeação. 

Nesse sentido, “Entretempos” nos aproxima de uma experiência onírica e sugere um estado de intervalo — um espaço temporal suspenso que não pertence inteiramente ao passado, ao presente e nem ao futuro. A palavra carrega a ideia de algo que acontece nos interstícios: entre durações, entre ritmos, entre experiências conscientes e aquilo que ainda não ganhou forma clara. 

Há nas obras a tentativa de tornar visível algo da ordem do inconsciente, do espiritual e daquilo que frequentemente se dissolve ao despertar, como nos conta a artista em um relato durante o desenvolvimento do trabalho: a lembrança imprecisa de um sonho, uma sensação corporal difícil de traduzir, um vestígio emocional que permanece sem imagem definida. 

A exposição também dialoga com uma tradição latino-americana em que cor, espaço e corpo se articulam como experiência sensorial. Assim como em certas arquiteturas de Luis Barragán ou nos ambientes imersivos de Hélio Oiticica, a percepção envolve deslocamento, duração, presença e afeto. A geometria deixa de ser racional para tornar-se atmosfera. A abstração converte-se em experiência. Hélio Oiticica escrevia sobre a necessidade de superar o quadro como superfície óptica para alcançar uma experiência “suprasensorial”, onde cor, espaço e duração fossem vividos integralmente. 

As obras de Carolina Martinez existem nesse estado intermediário — entre tempos, entre espaços, entre consciência e sonho. São construções que não buscam representar o mundo, mas ativar aquilo que nele permanece invisível: as emoções silenciosas produzidas pelos lugares, as reverberações íntimas da cor, os modos sutis pelos quais os ambientes nos transformam continuamente. 

Em “Entretempos”, Carolina Martinez cria espaços de travessia: ambientes em que a matéria se torna sensação e onde o invisível encontra, por instantes, uma forma possível. 

Carolina Martinez nasceu na cidade do Rio de Janeiro, Brasil, em 1985. Formada em Arquitetura e Pós-Graduada em História de Arte e Arquitetura no Brasil pela PUC-Rio, passou a ser conhecida por seu trabalho artístico em 2010, ao participar do Salão de Arte Contemporânea do Museu de Arte de Ribeirão Preto, São Paulo, Brasil. Desde então Martinez vem expondo em Individuais e Coletivas como: “Carolina Martinez: A Cor do Tempo”, Curadoria Paula Plee no Centro Cultural Correios, Rio de Janeiro; “L’Aube”, Galerie Ilian Ribei, Paris; “Seeing Thru Abstraction”, Todavia, Caminhar. Galeria Marilia Razuk (São Paulo,2024), Residency Unlimited (Brooklyn, NY – 2015); “Fullfillment Solo-Show” Residency Unlimited (Brookliyn, NY 2015), “Aquilo que não conseguia ver”, individual Galeria Portas Vilaseca (Rio de Janeiro, 2016) “A Questão do Espaço na arte”, EAV-Parque Lage (Rio de Janeiro, 2014); “Atributos do Silêncio”, Galeria Bergamin (São Paulo, 2015) e “Novíssimos”, Galeria IBEU (Rio de Janeiro, 2013). Seu trabalho pertence à Coleção Museu Nacional de Belas Artes Rio de Janeiro. Martinez cria conexões que existem entre espaços urbanos invisíveis, arquitetura e cenas da vida cotidiana que muitas vezes passam despercebidas. Por meio da pintura, esculturas ou instalações site-specific, seus trabalhos são sobre cor, espaço, arquitetura e o vazio. Em obras site-specific sempre busca deslocar algo padrão na arquitetura, e elevar de alguma forma um elemento ordinário da arquitetura ao status de escultura. Ao desafiar noções convencionais de arquitetura, distorce a percepção que o espectador tem do espaço. Foi selecionada para a Solanas Art Experience 2026 (Uruguay), onde fará residência no segundo semestre deste ano.

Com mais de 30 anos de história e contribuição para o mercado de artes nacional, a Galeria Marilia Razuk, com dois endereços na capital paulista, apresenta individualmente um espaço plural, com boa circulação e com capacidade de abrigar os mais diversos projetos expositivos. Divulgar, promover e difundir a produção contemporânea de artistas consagrados e emergentes, fazem parte da premissa de sua fundadora, Marilia Razuk. As galerias homônimas promovem exposições onde a diversidade criativa se destaca. Individuais ou coletivas, artistas brasileiros ou de outras nacionalidades, compõem o time de artistas que permeiam o calendário anual de mostras das galerias.


Serviço: Exposição “Entretempos”, de Carolina Martinez, em cartaz até 23 de julho, na Galeria Marilia Razuk, Rua Jerônimo da Veiga, 131 – São Paulo. Entrada gratuita.


Notas:
[1] Sublinhado por Hilma af Klint em seus cadernos pessoais (originalmente por Dr. Uno Helleday). 

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Publicado por:Philos

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